Mordendo o lábio para não rir, Kate seguiu-os para o lado de fora novamente.

- Posso fazer um chá?

- Tem café? - indagou Luc.

Pondo uma mecha de seus cabelos atrás da orlha, Kate sentiu suas faces queimarem diante da repentina inspeção a qual ele a submetera. Ela pessoalmente achou que tal inspeção era desnecessária porque afinal, ela estava usando jeans velha e uma blusa lilás que tinha perdido alguns botões. E se ele estiver olhando a falta dos botões…?   Quieta Kate! Recomponha-se e pare de pensar neste homem!

- Claro. Como você gostaria do café?

- Preto e forte, sem açucar.

Claro, eu deveria ter adivinhado… Afinal, era o modo como Luc vivia sua vida. Sem supérfluos, apenas o básico e o essencial, que qualquer pessoa precisaria.

- E você, Sean?

- Chá para mim, querida… muito leite e três cubos de açucar.

- Tudo bem… e que tal uma fatia de bolo de frutas caseiro para acompanhar?

- Adoro bolo caseiro a qualquer hora, portanto, direi sim, por favor! - Sean a pediu dramaticamente.

- E você Sr. O’Connell?

Ele deliberadamente se manteve formal, de modo que ele não a considerasse ousada. Mas havia um brilho nos olhos esverdeados quando ele lhe respondeu:

- Você sabe como tentar um homem, Srta. Ford.

- Irei preparar as bebidas - sorrindo timidamente, Kate entrou na casa e foi colocar a chaleira para ferver.

Luc tinha lhe levado um sofá, duas poltronas combinando e dois abajures estilo vitoriano, que completavam o interior tradicional do chalé tão bem que Kate podia até ter dado um abraço em Luc. A nova mobília transformou o local.

Agora, tudo que ela precisava fazer era aplicar umas camadas de tinta nas paredes e janelas e a casa pareceria um lar novamente, não um local assombrado por fantasmas da tristeza e solidão.

Tomando um gole do chá de uma caneca azul estamapada com as palavras  ”I’ll never let you go”, presente de Ryan, Kate estudou os dois homens sentados à sua frente.

Sean possuía a linguagem corporal bastante descontraída da juventude e parecia distraído de qualquer coisa, exceto do prazer de tomar seu chá. Enquanto Luc…, bem, Luc era muito diferente. As pernas envoltas em jeans preto pareciam quase longas demais para a cadeira em que ele se sentou. Ele enrolara as mangas da camisa até os cotovelos, revelando membros fortes. Os dedos que seguravam a caneca verde eram longos e delgados, o que definitivamente indicava os dedos de artista.

E apesar de Sean, ele não estava a vontade. Seu rosto bonito parecida distante e ele se sentia disconfortável com a situação, provavelmente ele preferia estar em qualquer lugar… Exceto aqui.Era por sua causa? Kate estava imaginando que ele estivesse lamentado por ter dado aquele beijo explosivo nela na noite anterior. Talvez, eu deveria trazer o assunto a tona? Dizer que aquilo que aconteceu não significara nada e sugerir para que eles recomeçassem de maneira profissional? Sim, certo. Disse ela a si mesma com ironia,  ele provavelmente riria da sua cara e lhe diria para que crescesse!

Com um repentino aperto no coração, Kate alisou um amassado imaginario na blusa, então quase engasgou quando pegou Luc estudando-a com um incontestável ardor nos olhos… ardor que a chamuscava mesmo quando havia uma distância consideravelmente distante entre eles.

- Foi muita gentileza sua substituir os móveis velhos - disse ela - Agora o chalé esta aconchegante e bonito.

- Eu devia ter feito isso tempos atrás - replicou Luc, sem sorrir - Algo mais que você gostaria?

Os dedos de Kate apertaram sua caneca de chá. Incapaz de encontrar-lhe o olhar, ela virou a cabeça em direção as janelas.

- Eu ia perguntar se eu posso pintar as paredes e janelas. Eu mesma comprarei as tintas e farei o trabalho.

-Claro, e eu ficaria feliz em vir aqui e fazer o trabalho para você, minha querida - disse Sean, olhando para as pernas longas de Kate cobertas pelo jeans desbotado e para os cabelos dourados, tombando livremente sobre os ombros até a cintura. -  Posso até mesmo conseguir a tinta para você. o que me diz, chefe? - O homem mais jovem olhou para Luc, cujo semblante sério pareceu imediatamente proibitivo.

- Se alguém vai pintar essa casa, esse alguém sou eu - disse ele, seu olhar repreendendo Sean por imaginar qualquer outra coisa.

- Eu não quero lhe dar trabalho - totalmente sem graça, Kate cruzou os braços.

Observou Luc se levantar e caminhar para a pequena cozinha para lavar sua caneca. Quando ele voltou, foi direto para a porta da frente e abriu-a.

- Voltarei por volta das 10hrs da manhã para começar - disse ele e desapareceu do lado de fora.

Kate exalou um longo e vagarozo suspiro.

Divertido, Sean levantou, deixando sua caneca e seu prato sobre a mesa de centro.

- Não deixe que ele a pertube, querida. Com certeza o latido de Luc é pior do que a mordida.. - E que mordida não deveria ser, né? - E a propósito, o bolo estava maravilhoso. O melhor que já provei, e não estou brincando. Eu poderia levar uma fatia para minha casa? Minha irmã Liz é dona de uma lanchonete com todas as espécies de lanches caseiros e eu gostaria que ela experimentasse esse bolo.

- Claro, apenas me dê um minuto para embrulhar um pedaço para você.

Ela voltou com o bolo prometido e, depois de agradecê-la, Sean piscou-lhe e deixou o chalé, assobiando alegremente.

(…)

Sentindo o cheiro de tinta fresca no ar, Kate saiu da cozinha para observar Luc agachado e pintando o rodapé. Naquela manhã ele estava novamente vestido de preto, seus cabelos brilhando mais do que o normal. Kate queria tocá-lo… fazê-lo girar… fazê-lo notá-la. Começava a se sentir frustada pela indiferença que Luc a tratava, a qual parecia estar crescendo em vez de diminuir, e algo dentro de si queria persuadi-lo a voltar para a terra dos vivos… O que era irônico, quando ela contemplava seu próprio desejo de isolamento. Enfim, um passo de cada vez.

- Por que eu não posso ajudá-lo? - indagou ela.

O pincel parou na mão de Luc. Cuidadosamente limpando os pingos do lado de dentro da lata de tinta, depois deitando o pincel através da lata, ele erguei a cabeça e encontrou-lhe os olhos. O coração de Kate disparou.

- Prefiro fazer isso sozinho.

Ela não ficara surpresa, mas cruzou os braços sobre a camiseta verde que usava, ordenando a si mesma para que não encolhesse diante daquele olhar frio que congelava até mesmo o mais corajoso.

- Por que você prefere fazer tudo sozinho?

- Isso a incomoda? - ele fitou-lhe os olhos diretamente.

- Não. Quero dizer, sim. Se é para ser honesta, isso me incomoda. Nenhum homem é uma ilha. Todos precisam de um pouco de ajuda e apoio de vez em quando.

- Por isso você se esconde aqui? - questionou ele, levantando-se.

Umidecendo os lábios com a língua, Kate engoliu em seco. O olhar de interesse dele capitou o movimento e, em segundos, transformou-se gelo em fogo.

- Eu não estava falando de mim.

- E se eu dissesse que quero falar de você

De algum modo, a voz profunda adquirira uma ressonâcia hipnótica, que arrepiava a pele de Kate. 

- O que você quer saber sobre mim?

- Quero saber se você tem senso de aventura, Kate… ou é o tipo de mulher que não gosta de se arriscar?

- Não sei o que quer dizer - ela abaixou a cabeça, pois não conseguia lidar com o ardor daqueles olhos verdes.

- Você sabe muito bem o que eu quero dizer.

Todo o sangue pareceu fluir para a cabeça dela. Dentro do peito, seu coração batia descompassado. Se ele poderia lhe fazer isso apenas com suas palavras, o que ele poderia fazer com seu corpo? Que efeito o toque dele teria sobre sua pele?

- Não acho que você deveria estar me fazendo perguntas tão pessoais - nervosa, Kate se virou, seu olhos azuis se arregalando quando Luc a puxou pelo braço.

- Você não acha? Então pare de se insinuar para mim com esse jeitinho de menininha recatada. Você não tem idéia no que está se envolvendo.

Puxando seu braço, Kate esfregou-o.

- Eu não estou me insinuando para você! Você é muito convencido, não é?

Luc lhe deu um pequeno sorriso malicioso.

- Volte a assar seus bolinhos, querida. Se você for boa… ou talvez eu devesse dizer . Mais tarde eu lhe falarei sobre uma fantasia erótica minha sobre mulheres na cozinha.

- Não, obrigada - humilhada e indignada, ela se retirou.

- Nunca pensei que você fosse covarde! - gritou ele, gargalhando. Kate pôs sua cabeça para fora e o encarou com fúria.

- E eu definitivamente o considero um sádico - replicou ela zangada - Por infelicidade, ainda não me provaram que eu estou errada. 

- Agora você realmente feriu meus sentimentos - fazendo um beicinho e fingindo uma expressão decepcionada, ele deu um sorriso igual ao de um adolescente, triunfante por ter a última palavra. Luc se agachou e retornou para a pintura…



Capítulo 3

Luc se serviu de uísque, e então levou o copo aos lábios. Desprezando-se por sucumbir a algo que considerava seu último recurso, bebeu todo o uísque e pôs o copo sobre o aparador. Sua garganta queimou, mas não foi o suficiente para amenizar sua aflição. O que tinha feito, tratando uma viúva sofrida como se ela fosse sua e só esperasse para ser tomada? Apenas porque ela fizera a cortesia de ouvir suas lamentações quando ele aparecera no chalé sem ser anunciado, naquela primeira vez, não signicava que Kate lhe daria qualquer coisa que ele pedisse!

Ele gemeu. Chase olhou curiosamente de onde estava deitado junto à lareira, depois deixou cair a cabeça sobre as patas dianteiras como se dissesse : O que aconteceu?

Cara, isso deixava Luc aflito. Havia muitas mulheres na cidade e nas redondezas… mulheres que adorariam aquecer sua cama. Algumas delas tinham feito isso… mesmo que brevemente… no passado. Depois que Laura o deixara, ele não se importava com quem elas eram, apenas com o que estavam dispostas.

Luc quase pegou a garrafa de uísque novamente só de pensar nisso. Protegera-se é claro… não as queria grávidas. Mesmo assim, aquele não era o tipo de comportamento do qual se orgulhava.

Mas agora, depois de dois anos sem compromisso, não podia acreditar que estivesse afetado por uma pequena feiticeira com cabelos dourados, um sorriso angelical e um corpo que queria nu ao seu alcance. Nem os jeans desbotados e os suéteres largos que ela usava tinham sido capazes de disfarçar completamente o corpo curvilíneo sob as roupas. Luc precisara de toda sua força de vontade para não tomá-la lá fora, na chuva… contra a parede do chalé, mas precisamente. O desejo consumira a ambos, e ele sentira isso nos deliciosos tremores daquele pequeno corpo sexy. 

Luc imaginou os grandes olhos azuis arregalando-se em choque, depois revelando paixão. O quadro vívido que invocou quase o enlouqueceu de desejo. Ele era um homem apaixonado… um homem que punha seu coração e alma em tudo o que fazia… seja exercitando-se, ganhando dinheiro, pintando quadros ou fazendo amor. Mas não podia se lembrar de outra vez nos seus 32 anos em que quisera tanto uma mulher quanto queria a linda loirinha viúva. E o pior de tudo era que não deveria querê-la. Não quando ela claramente ainda estava de luto pelo seu marido. Somente um bastardo insensível aproveitaria de tal situação. 

- Ela é um problema com "P" maiúsculo. - disse ele em voz alta, seu tom grosso percorrendo a sala de estar.

Alguns tapetes persas, agora desbotados, estavam dispostos aqui e ali no assoalho e um grande aparador de carvalho e uma poltrona ornada… reformada para benefício de Laura, não do seu… eram os únicos móveis. Nas paredes, havia vários retratos velhos, que obtivera como uma espécie de “lotes variados” quando comprara a casa, mas nenhum deles tinha sequer alguma coisa a ver com ele. Vinha pretendendo-os colocá-los no depósito mas ultimamente ele não tivera coragem sequer de pensar na tarefa, muito menos de fazê-la. A casa era bonita, com a espécie de um esplendor desbotado que diversas casas irlandesas antigas possuíam. Mas agora, muito dos proprietários de tais casas não tinham condições de mantê-las e conservá-las, e embora Luc tivesse condições, a propriedade ainda era sem alma… mesmo com a administração de sua amorosa governanta Bridie. Que mais a casa poderia ser, com apenas um homem infeliz e seu cachorro vivendo nela? Ocorreu-lhe então que o chalé de seu pai era muito mais simples e aconchegante, graças a adorável, bela e curvilínia inquilina que lá vivia.

 Quando a imagem de Kate preencheu sua mente, velas perfumadas e lareira crepitante como fundo, ele balançou a cabeça com raiva, desesperadamente tentando descartá-la. Não podia entender aquilo. A mulher o deixava em chamas apenas com um único olhar inocente, e não havia falsidade a ser detectada naqueles olhos azuis… apenas um calor para o qual ele queria gravitar e uma dor que ansiava libertar. Aquele não era ele.

Além do mais, Kate não precisava de um homem amargo e angustiado como ele. A alma inocente e o coração generoso da mulher precisavam de um homem mais nos moldes que ele imaginava ter sido o marido dela, alguém gentil e amoroso, sem dúvida… alguém com infinita paciência, alguém que venerava o chão onde os pezinhos perfeitos de Kate pisavam. Luc sorriu. As meias brancas e grossas que ela estivera usando na ocasião anterior não tinham passado despercebido. Ele imaginou como ela ficaria nua, usando apenas aquelas meias brancas castas e aquele seu sorriso angelical. O pensamento causou-lhe agonia. Pelo amor de Deus! Mantenha distância dela, à partir de hoje, homem!

~~~~~

Kate se sentou na cadeira junto à janela ouvindo o som do oceano. Seu corpo inteiro estava tenso pela espera. Esperando que Luc aparecesse com as tais coisas que comprara pro chalé. Será que depois da última noite ele mudara de ideia?

Seu coração se entristeceu quando se lembrou de como ficara vulnerável par ao homem, quase incapaz de controlar a onda de sentimentos que ameaçara derrubá-la. Era isso que a paixão fazia a uma pessoa? Fazia-as perder a razão e a dignidade?

Se Luc não tivesse ido embora quando foi, Kate não sabia se teria controlado seu impulso de praticamente implorar para ele compartilhar sua cama. Não era de admirar que estivesse tão nervosa com a perspectiva de vê-lo de novo. Como irira encará-lo? Como se o homem já não tivesse vantagens suficientes sem sua inquilina sexualmente frustrada se atirando aos pés dele!

Com um pequeno gemido ela meneou a cabeça, quando escutou o som do veículo se aproximando se assustou e a fez saltar da cadeira. Abrindo uma gaveta, achou uma escova de cabelos e começou a escová-los diante do pequeno espelho que deixara encostado perto de uma fileira de prateleira de livros.

Uma batida à porta fez Kate jogar a escova dentro da gaveta e se apressar para atender a porta.

- Olá! – ofegante ela olhou para Luc. Aqueles misteriosos olhos esverdeados a avaliaram por longos segundos sem falar uma palavra. Iria ele ao menos responder seu cumprimento? Com a boca seca, Kate deixou seu olhar vagar na direção daqueles lábios implacáveis. Os mesmos lábios zombeteiros que na noite anterior havia lhe queimado.

- Nossa… Que olhos grandes você tem, Srta. Ford. – a voz baixa e sexy fez o coração de Kate disparar.

- Esta frase… esta frase não deveria ter sido de Chapeuzinho Vermelho… ou no caso, minha?

O problema era que ela estava se lembrando do gosto provocativo daquela boca e imaginando como ela iria fingir que nada perturbador acontecera, quando ambos sabiam que tinha acontecido. Aquele beijo apaixonado transformara tudo que Kate acreditava sobre si mesma e ela seria incapaz de restaurar essa crença para onde estava antes.

Depois de avaliá-la por longos segundos, Luc deu-lhe um sorriso lento.

- Um homem pode esquecer seu próprio nome, ficando aqui olhando para você – disse ele – E isso não daria certo. Em relação a mobília que eu trouxe… se você não gostar, poderemos trocar. Não que eu gostei da ideia de outra viagem às compras tão cedo, mas por você Srta. Ford, faria uma excessão.

- Estou certa de que sua escolha foi ótima.

- Ótimo, - ele sorriu – Que mudança refrescante encontrar uma mulher tão afável. – virando-se abruptamente, voltou para o lado de fora.

Kate deu um suspiro trêmulo. Não havia dúvida de que o homem era bonito, mas quando ele sorria… Seu sorriso era como o sol iluminando os dias mais cinzentos, e os cílios escuros eram longos e maravilhosos, a boca completava tudo, formando uma deliciosa curva enigmática que lhe causava um friozinho em sua barriga. Como uma mulher poderia esquecer aquele rosto incrível?

Atravessando o gramado da casa até a estrada estreita que conduzia à residência, Luc abriu as portas traseiras da grande van branca. Kate viu um jovem alto e magro com os cabelos cor de mel, vestido num jeans manchado de tinta e camiseta preta, descer do assento da frente e caminhar ao lado dele, talvez para ajudar a carregar alguma coisa. A primeira coisa a emergir foi um belo sofá de dois lugares estilo vitoriano, estofado com linho natural. Os homens os levaram para dentro da casa e depositaram-no ao lado de uma versão velha que seria substituída. Levantando as três pequenas almofadas de veludo verde que adornavam o velho sofá, e Luc jogou-as em cima do novo sofá.

- Muito melhor, não acha?

Havia algo quase afetuoso no olhar de Luc.. quase como se ele estivesse incerto da reação dela e procurasse sua aprovação.

- É maravilhoso. – ela sorriu.

- À propósito, este é Sean Regan, Sean… esta é a Srta. Ford.

- Chame-me de Kate. – ela deu um passo a frente para estender a mão ao jovem, já sentindo a amizade no rosto atraente dele e notando os dois pequenos brincos de prata que ele usava numa orelha com um sentimento quase maternal. O que era ridículo, considerando que ele devia ser apenas uns dois anos mais novo que ela. O olhar tímido de Kate, deslizou furtivamente para Luc. Talvez ela preferisse que seus homens fossem um pouco mais maduros e rudes?

- Prazer em conhecê-la, Kate. – Sean sorriu enquanto Luc indicava que queria sua ajuda para levar o velho sofá para o lado de fora. – Eu a vi na cidade algumas vezes caminhando pelas colinas ou a beira-mar. O que acha disso aqui? Não é solitário demais?

- Acho ótimo, Sean. Paz e quietude são o que eu preciso.

- Vai ficar o dia todo papeando com a Srta. Ford, ou vai me ajudar, como lhe pedi?

- Acho que vou ajudá-lo, chefe… estou aqui para isso, não é? Mas é triste quando um homem não pode sequer compartilhar algumas palavras com a nova vizinha, não acha?

A observação gentil e divertida levou outra carranca ao rosto de Luc, e quando os dois homens passaram por Kate com o sofá, Sean deu-lhe uma piscada conspiratória. 



Ela estava chorando enquanto falava, as lágrimas misturando-se com a chuva. Por que era tão difícil dizer o que queria? Sentia falta do lado físico da vida. Sentia falta de ter alguém para abraçá-la, tocá-la e torná-la mulher novamente. Não queria um relacionamento com Luc, ele era o último homem do mundo que ela queria. Era zangado demais… muito machucado para ser gentil. Mas ambos tinham sido feridos pela vida. Por que não deveriam encontrar conforto nos braços um do outro por um momento? Um momento que não precisava significar nada mais do que isso.

- Seria apenas sexo, querida - afirmou Luc, como se adivinhasse seus pensamentos. - Nada mais. Nada de “fazer amor”, de corações, flores, violinos… apenas sexo. Você realmente se contentaria com isso?

Aquelas palavras chocaram Kate.

- Você é sempre tão cruel? - perguntou ela. - Aposto que arrancava asas de libélulas quando era criança, aposto que fazia armadilhas para animais indefesos… Aposto que partiu o coração da sua pobre mãe!

Em dois passos Luc estava à sua frente, a respiração quente em seu rosto.

- Minha mãe tirou a própria vida quando eu tinha 3 anos. Talvez por ter me tido. Quem sabe? Mas se a culpa foi minha ou do meu pai, nunca saberei, e tenho que conviver com isso todos os dias. Então, Kate, eu a aconselho a pensar duas vezes antes de fazer comentários impulsivos!

O impacto daquelas palavras fez Kate enrijecer. Então, mal percebendo ela ergueu uma das mãos e tocou-lhe os lábios com os dedos. E naquele momento, viu além do homem raivoso que não sabia o que fazer com sua dor. Vira um menininho de 3 anos que fora abandonado pela mãe, e mais tarde, pelo pai. Um aperto comprimiu-lhe o coração.

Luc agarrou-lhe o pulso e afastou-lhe a mão rudemente. Antes que Kate pudesse reagir, ele entrelaçou as mãos nos seus cabelos e tomou-lhe os lábios num beijo voraz e apaixonante.

Kate tremeu de… hm.. prazer? Sentindo-se refém de tamanha avidez… uma avidez que exigia tudo, que não a poupava de nada e que a consumia de desejo. Quando as mãos fortes deixaram seus cabelos e desceram para trazer seus quadris contra ele, a masculinidade viril pressionou a barriga de Kate, informando-a o desejo de Luc. Uma onda de sensualidade a envolveu, roubando-lhe o poder de racionar, de permanecer sã.

- Era assim com se marido, Kate? - Quando Luc se afastou do beijo, os olhos verdes a queimavam como uma febre. Ele ignorou a chuva que estava ensopando ambos.

Kate levou vários minutos para registrar a pergunta. Com seus lábios formigando pela paixão, seu corpo pressionado contra a masculinidade de Luc, enquanto braços poderosos a rodeavam, era difícil lembrar quem ela era… Trágica Kate Ford de um vilarejo na Inglaterra… uma mulher que compunha músicas sobre paixão, que cantava sobre o tipo de amor que consumia o corpo e a alma, mas que nunca o experimentara pessoalmente… 

A chocante percepção  fez se desvencilhar do abraço de Luc, a fim de parar a loucura. Odiando a si mesma por quase sucumbir a luxúria,  esfregou os lábios.

- Meu marido era um homem bom e gentil.

- Mas não é gentileza que você quer de mim, Kate… é?

Luc deu um sorriso irônico e Kate sentiu uma pontada de dor em seu coração.

- Não faça…

- Não fazer o que? - exigiu ele, pondo as mãos nos quadris, o rosto iluminado pela lua. - Você precisa decidir, Kate. Ou é apenas uma garota, ou é uma mulher. Quando souber a resposta talvez possamos fazer um acordo satisfatório?

- Eu não quero… Não estou interessada em…

- Mentirosa. - Ele cuspiu a palavra como um dardo venenoso.

- Acho melhor você ir embora. - Suas palavras também eram mentirosas, porque mesmo agora seu corpo ansiava pelo toque de Luc, como um viciado necessitava por uma droga.

- Sim, creio que é melhor.

Com uma expressão distante nos olhos, Luc se virou abruptamente e desapareceu na noite chuvosa.



Estava contemplando a vista, quando quase caiu para trás quando alguém bateu a porta. Abrindo o trinco foi cumprimentada pelo ar frio da noite e pelo bonito e sedutor Luc O’Connel. 

- Passei para lhe dizer que comprei algumas coisas para o chalé. Tudo bem se eu deixá-las aqui amanhã ?

Ele falou sem preâmbulos, se sequer dizer olá. Kate sentiu um friozinho na barriga quando encontrou os olhos esverdeados. Nunca vira tanta solidão nos olhos de uma pessoa. Não ajudava que soubesse algumas das razões para aquele olhar sofrido e distante.

- Claro! Amanhã cedo está bom. - O que ele comprar para ela e para quê, ela não poderia adivinhar, mas de algum modo aquilo parecida irrelevante agora.

- Ótimo. - Luc se virou, sem sequer se incomodar em dizer tchau, e por motivos que não queria analisar, Kate se sentiu relutante em deixá-lo ir embora.

- Eu fiz uma sopa para a janta. - Ela engoliu em seco. - Há mais do que bastante para nós dois… isto é, se você ainda não comeu.

- Isso é um hábito seu ? - Perguntou me analisando de cima a baixo.

- O que? - Perguntei corando.

- Normalmente faz convites espontâneos para pessoas que mal conhece? - perguntou Luc de modo irritado, colocando os pés firmemente na soleira da aporta como um capitão ao leme de seu navio um capitão muito atraente por sinal, acrescentei em pensamento.

- Você apareceu dias atrás e entrou sem que eu o convidasse. Isso não é muito diferente.

- Ora mulher! Você está sozinha aqui.

Kate ficou surpresa pela veemência no tom da voz dele. Qualquer pessoa que não os conhecesse pensaria que Luc se importava se ela estava segura ou não… o que era ridículo considerando os fatos.

- Sei que estou perfeitamente segura aqui. Tive medo apenas uma vez, e isso foi quando, sem querer, encontrei o “lobo mau” na floresta dias atrás. - Digo com um meio sorriso formando em meus lábios.

Por um momento um músculo ficou tenso, depois relaxou novamente na face esculpida de Luc. Ele deu o princípio de um sorriso, o que o deixou tão atraente que Kate questionou sua sabedoria em convidá-lo para jantar.

- E ele a deixou ir embora? - Perguntou Luc.

- Sim… deixou.

- Algum dia, estes olhos azuis seus irão te colocar em problemas enormes, garotinha!

- Não sou uma garotinha, portanto, pare de me chamar assim. Sou mulher… uma mulher que já foi casada, pelo amor de Deus.

- Já foi? É divorciada agora, então?

Mentalmente contando até cinco, Kate fechou a porta contra a noite fria e chuvosa. Estava tremendo, mas não tinha nada a ver com o tempo. Olhando para seu visitante, notou que ele tirara a jaqueta e pusera sobre o braço do sofá. Mas uma vez, aproximou-se da lareira e estendeu as mãos para o calor… embora Kate intimamente tivesse imaginando que precisaria muito mais que cem lareiras fumegantes para derreter o gelo no coração de Luc O’Connell.

- Sou viúva. - Kate deu de ombros quando ele se virou para avaliá-la. De novo.

- Há quanto tempo perdeu seu homem? - A maneira como ele parafraseou aquilo pareceu quase poética.

- Dezoito… quase dezenove meses. - Ela preparou para receber uma resposta espinhosa daquele homem enigmático que claramente tinha tantas defesas ao seu redor. Não que estivesse procurando por empatia ou coisas assim.

- Foi por isso que veio para cá? - Os olhos verdes a percorreram da cabeça aos pés, depois retornaram para o rosto dela, fixando-se em sua boca. Poxa, de novo.

Sem graça, Kate fez uma careta.

- Agora, sobre aquela sopa… Espero que esteja com fome.

- Como ele morreu?

- Eu não… realmente não quero falar sobre isso. - Murmuro olhando para baixo.

- Pareço me recordar que você me disse que, algumas vezes, falar ajuda.

Olhando-o, Kate estava inexplicavelmente aborrecida por ele ter jogado o que tinha sido de compaixão verdadeira de volta em seu rosto.

- Você não aceitou meu conselho quando eu ofereci… porque espera que eu aceite?

- No meu caso, eu sabia que falar não adiantaria. Você, contudo, é um caso muito diferente, Srta. Ford. Á propósito, qual é o seu primeiro nome?

- Você obviamente sabe que é Kate. É o proprietário deste chalé. O corretor de imóveis deve tê-lo informado.

- Talvez eu quisesse ouvir pelos seus próprios lábios. - Tocando a borda da calça preta que Luc vestia, ele estudou-a. - Você parece jovem demais para ter sido casada… e ainda mais jovem para estar viúva.

- Você sabe minha idade. Eu lhe disse antes. E Ryan e eu fomos casados por cinco anos. A morte dele foi um terrível choque para mim. Não houve aviso, portanto, eu não estava preparada. Ele não estava sequer doente. Trabalhava duro… duro demais. Longas horas, sem descanso suficiente… Mas esta é a cultura hoje em dia, não é? - Kate meneou a cabeça. - A cultura que nos ensinam a admirar. Como se houvesse alguma virtude em trabalhar duro e morrer jovem! Meu marido sofreu um infarto fulminante aos 30 anos. Pode imaginar isso? Quando ele se foi, eu quis morrer também. Então, não diga que não pareço velha o suficiente para ser casada, porque no espaço dos cinco curtos anos que estive casada vivi mais do que a maioria das pessoas vivem em dez anos.

Ela estava tremendo de emoção, horrorizada em se expor de forma tão apaixonada na frente de um homem que provavelmente considerava tal explosão um sinal de fraqueza. Se fosse possível voltar no tempo e retirar as palavras… Ah, mas já foi, foda-se. Kate! Não xingue. Mesmo em pensamento.

O semblante bonito de Luc era uma máscara fria e impenetrável. Sem palavras ele pegou sua jaqueta de volta no braço do sofá e a vestiu. Kate lutava para recuperar o equilíbrio, ele se aproximou a expressão severa. Com o coração disparado, ela automaticamente deu um passo para trás.

- Sinto muito pelo incômodo, Srta. Ford, e desculpe por ter intrometido onde não tinha direito. Não vim aqui para fazê-la revisitar lembranças sofridas e chateá-la. Eu a verei pela manhã, como combinado. Ou prefere deixar isso para outra hora mais conveniente?

Nervosa, ele meneou a cabeça.

- Amanhã cedo estará ótimo.

- Certo. Desejo-lhe uma boa noite, então. - O olhar de Luc percorreu-lhe o rosto pálido, os angustiados olhos azuis com cílios louros que o lembravam de um carneirinho, e os lábios carnudos e trêmulos, desprovidos de qualquer traço de batom.

Um homem teria de ir muito longe para ter que encontrar tal beleza inocente numa mulher, pensou ele.

Kate o ouviu ir para a porta, abri-la e sair. Quando ele se foi, o corpo dela pareceu se mover por vontade própria, levando-a a segui-lo.

- Luc!

A voz que gritou o nome dele era cheia de angustia e alguma coisa mais… Coisa que Luc registrou em sua mente controlada. Um calor o inundou com a compreensão, excitando-o. Virou-se para olhá-la. Mesmo no escuro, sabia que seus próprios olhos brilhavam como os de um gato.

- O quê?

- E-eu apenas… apenas quero que você…

- Não me peça para ficar, Kate. Eu acabarei ferindo-a. Acredite.

Tremendo, Kate procurou pelas palavras certas e lhe dizer como se sentia.

- Eu quero… eu preciso… meu Deus! Tenho que soletrar isso para você?

(queen-insanity)



Aproximando-se da porta, Kate o observou indo embora, com a cabeça baixa, caminhando na chuva, como se carregasse muito peso sobre os ombros largos. Estranhamente, ela desejou muito que ele ficasse. O pensamento fez seu coração bater forte dentro do peito.

Ele tivera uma crise de loucura temporária, e aparentemente eu também. Era chocante perceber que o olhar que ele lhe dera na saída tivera o poder de excitá-la. Ou seria porque fazia muito tempo que nenhum homem a olhava com desejo?

Depois que Ryan morrera, Kate dissera a si mesma que jamais quereria ou pensaria em outro homem. E era difícil acreditar que Luc O’Connell a quisesse… especialmente no seu atual estado de atrativos.

Seu corpo esquentou ao se lembrar de que ele dissera que ela não era a espécie de mulher que poderia oferecer o que ele precisava no momento. Como ele poderia saber disso? Passar noite após noite em uma cama fria e solitária era capaz de enlouquecer um pouco uma mulher sofrida da vida.

Kate arfou ao perceber que estava contemplando aquilo com um estranho… especialmente quando minutos antes estivera chorando por Ryan. Fechando a porta, encostou-se contra ela e fechou os olhos. Qualquer porto numa tempestade… Era aquilo que Luc estava procurando. E talvez, ela também. O homem que amara e com quem se casara tinha ido embora há tempos. Talvez qualquer porto numa tempestade fosse tudo o que ela pudesse esperar por agora. Mas pelo menos Luc dissera que ela podia ficar. Não havia necessidade de se sentir tão grata, mas o fato era que Kate se sentia… E com esse pensamento Kate foi dormir.

No sábado, Kate fez uma visita mais prolongada à cidade local. Alegre pela relutante permissão de Luc em deixá-la ficar no chalé, ela decidira celebrar. Comprando algumas coisas para alegrar o lugar. Andou contente entre as ruas estreitas, visitando as pequenas lojas de artesanato e livrarias, experimentando texturas, perfumes e cores… algumas vezes comprando, outras não.

Na maioria do tempo sua exploração era acompanhada por melodias irlandesas que saiam de muitos Pubs pelos quais ela passava. A música mexia com sua alma, como sempre mexera, deixando-a feliz e triste simultaneamente. Feliz pela alegria que a musica lhe trazia, triste porque provavelmente deixara aquele modo de vida no passado para sempre. Entretanto, os dedos que seguravam as tiras de sua mochila, coçavam por pegar um violão e tocar, e ela teve uma breve visão do instrumento guardado debaixo de sua cama.

Afastando o pensamento, Kate entrou numa cafeteria para um café e uma torta dinamarquesa, feliz em sentar entre estranhos e apreciar o seu lanche em paz.

Quando saiu para as ruas novamente, já estava escurecendo e as pessoas começavam a ir para suas casas. Num impulso de ultimo minuto. Kate entrou em uma livraria e comprou um livro que lhe dera algum consolo durante os meses após a morte de Ryan. Infelizmente, deixara o livro a Inglaterra. Guardando o livro na bolsa, andou, contente, para onde estacionara o carro.

E deixara seus pensamentos vagarem na direção de Luc…

(queen-insanity)



Capítulo 2

No dia seguinte ao segundo encontro desafortunado de Kate e Luc, o frio que estivera se formando há dias, chegou com força total. Tendo dormido muito pouco na noite anterior, ela decidiu ser sensata por uma vez na vida e ficar dentro de casa. Depois de uma cansativa luta para obter as fracas chamas da lareira acesas, aconchegou-se na única poltrona da sala, segurando sua xícara de chá, tentando não sucumbir a auto-piedade… Um desafiom quando seu olhos estavam vermelhos e ardendo pela falta de sono.

Do lado de fora a chuva aumentou, produzindo um som desolado e solitário, mais surpreendentemente aquilo não a aborrecia. Não quando havia algo muito mais perturbador para sua paz de espírito. Ela não gostava da idéia de deixar aquele chalé. Luc fora muito injusto ao exigir sua partida, porque tomara uma implicância pessoal por ela? Que outra razão poderia haver, quando ele nem sequer considerara necessário explicar?

Bem, agora Kate teria que procurar outra propriedade para alugar na área. Independentemente de qualquer coisa, não estava pronta para retornar ao lar ainda… Voltar para as inaceitáveis perguntas e críticas da família e dos amigos. Não estava pronta para explicar seus sentimentos ou ações para ninguém. Na verdade, não sabia se algum dia estaria. Lutara por mais de um ano fingindo que estava lidando com as coisas, e no final, percebera que precisava fugir. Algumas vezes tinha sido duro respirar, rodeada pelas mesmas pessoas e o mesmo cenário. Ansiara por escapar.

Pondo de lado sua xícara, pegou seu lenço e fungou. Sentia tanta falta de Ryan… Ele havia sido seu companheiro constantemente. Seu coração estava submergido numa onda sufocante, contra a qual Kate não tinha forças para lutar. Ele lhe fora tirado de modo tão cruel e repentino que eles nem tiveram a chance de dizer adeus. Ninguém conseguia confortá-la desde então. Nem sua mãe, nem suas amigas bem-intencionadas.. Ninguém exceto Ryan.

Kate suspirou. Nada podia curar seu coração ferido. Somente o tempo abrandaria sua tristeza. O lenço em suas mãos ficou ensopado com mais lágrimas.

Quando uma batida soou à porta, ela gelou na poltrona, desejando que a pessoa do outro lado fosse embora. Da maneira como estava se sentindo, mesmo levantar da poltrona requeria um esforço que não tinha vontade de fazer agora. Quando ela não se levantou, a aldrava bateu outra vez, o som alto fazendo-a estremecer. Limpando o rosto com o lenço, Kate relutantemente foi até a porta.

Do lado de fora, na chuva, gotas de água escorrendo pelo rosto bonito, os braços cruzados sobre o peito, Luc O’Connell se inclinava impacientemente contra o batente da porta. Enquanto Kate o olhava em perplexidade, ele endireitou o corpo.

- Posso entrar?

Surpresa por ele não ter entrado sem pedir licença. Kate assentiu. No interior da casa, a lareira acesa da sala oferecia aconchego apesar da falta de sociabilidade por parte da inquilina do chalé.

Ajeitando seu short e voltando para sua poltrona, Kate assumiu seu assento. Se ao menos não tivesse se sentindo tão patética, diria a ele para ir embora… Mesmo ele sendo o dono do chalé.

Vagarosamente Luc se aproximou da lareira. Sua jaqueta pingava sobre o chão de pedra, coberto com um tapete feito a mão que devia ter sido bonito ma vez, mas agora era gasto e desbotado.

Com relutância Kate falou:

- É melhor tirar sua jaqueta. Você está ensopado.

Levantando-se novamente, Kate esperou enquanto ele removia a jaqueta e lhe entregava, sem uma palavra. Ela a pendurou atrás da porta.

Voltando para a sala, foi imediatamente atingida pelo cenário intensamente solitário que seu visitante formava. Ele estava aquecendo as palmas das mãos no fogo crepitante e seu perfil lindo revelava desolação. Por que teria ido lá? O que quereria dela? Já lhe dissera que não a queria como inquilina do chalé. Não havia necessidade de repetir aquilo. Kate entendeu bem a mensagem.

- Não consegui pintar. – virando-se para fitá-la, Luc quase instantaneamente voltou seu olhar para a lareira. – Não hoje. E por uma vez eu não quis ficar sozinho.

- Ouvi dizer que você é artista.

- E com certeza, não foi tudo que você ouviu. Foi?

Cautelosa, Kate se aproximou. Subitamente, a inexplicável necessidade de oferecer conforto aquele homem era até mesmo mais forte que seu próprio sofrimento.

- Há algo que eu possa fazer para ajudar?

- Ajudar em quê? Libertar-me da incessante melancolia que me segue por toda a parte? Não. Não há nada que você possa fazer para me ajudar.

Luc se afastou da lareira e começou a andar pela sala. Ele era um homem de ombros largos e com cabelos negros e sua estatura fazia a sala parecer ainda menor.

- Não há nada que você possa fazer, exceto talvez não me questionar e ficar em silêncio – disse ele – Eu aprecio uma mulher que saiba ser silenciosa.

Intuitivamente Kate entendeu a necessidade dele por quietude. Também registrou o tumulto refletido nos olhos esverdeados. Desta vez, ela não estava ofendida pelas palavras ásperas de Luc. Com passos suaves, apenas de meias brancas nos pés ela voltou para sua poltrona.

- Tudo bem… sem perguntas. – disse ela oferecendo um sorriso fraco – ficarei bem aqui sentada bem quieta.

- Por que você estava chorando?

A pergunta penetrou o silencio que os envolvera por acordo.

- E-eu não estava chorando… – negou Kate, alcançando seu livro sobre a mesinha de centro e olhando para a capa – Peguei um resfriado. – Ela assoou o nariz no seu lenço como se para enfatizar suas palavras.

- Você estava chorando – insistiu Luc, estudando-a – Não acha que sou capaz de saber quando uma mulher esteve chorando?

- Não sei. Não sei nada sobre você. – Por que ele tivera que aparecer hoje, logo hoje entre tantos dias? Bem, dizem que sofrimento adorava uma companhia, mas se pelo menos ele fosse embora e a deixasse com seu próprio sofrimento em paz.

- E não quero que você me conheça. – Ele balançou a cabeça, como se espantando pensamentos perturbadores, então a fitou.

Kate se encolheu mais ainda dentro de si mesma. Olhou para o livro em seu colo e não disse nada.

Luc suspirou.

- Deve estar pensando que isso não é justo, quando eu invadi sua própria paz quando você esta claramente chateada.

- Se você precisa conversar… apenas para ter alguém que escute sem julgar ou comentar… então eu posso fazer isso. – O coração de Kate acelerou porque ela não sabia como ele reagiria.

- Tudo bem – disse ele, quase para si mesmo. – Eu falarei. – Respirou fundo, como se reunindo seus pensamentos. – Meu pai viveu neste chalé por cinco anos antes de morrer. – Parando de andar pela casa, fitou-a. – Ele nunca me deixou acertar as coisas. Gostava do chalé como ele era, dizia… que não queria meu dinheiro. Ficou furioso comigo porque eu não fiquei aqui e trabalhei na fazenda que ele costumava possuir… até que aquilo ficou demais pra ele. A fazenda que meu avô e bisavô possuíam antes de meu pai. Ele não entendia que aqueles dias tinham passado. Trabalhar na terra não estava no meu sangue, como estava no dele. Eu tinha outros sonhos. Sonhos que eu queria ter a chance de realizar. Ademais, um homem mal se sustenta como fazendeiro hoje em dia… não quando os supermercados podem importar vegetais baratos do Peru, em vez de comprá-los de fazendas locais.

Pressionando os dedos na testa, Luc torceu os lábios de modo zangado.

- O que minha educação universitária e minha esperteza tinham feito por mim, perguntou-me meu pai um dia. Para ele, só me fizeram ficar longe deste lugar… longe de casa. – ele pausou, como se avaliando se deveria ou não prosseguir com sua história – Ele não estava interessado que eu fizesse uma fortuna na bolsa de valores. Perguntou-me quanto dinheiro um homem precisava para levar uma vida útil? Tenho ponderado esta pergunta desde então. Não estou certo sobre a utilidade, mas acabei descobrindo algo que me deu até mais prazer do que fazer dinheiro. Descobri que adoro pintar e que tenho até algum talento.O desejo de pintar no lugar que cresci finalmente me trouxe para cá, meu lar, mas foi tarde demais para Paddy e eu nos reconciliarmos. Ele era amargo e cheio de arrependimento pelo que havia perdido, e morreu de tanto beber três meses depois que eu voltei. Encontrei-o morto na praia uma manhã, meia garrafa de uísque no bolso. Ele caiu contra uma pedra e esmagou a cabeça.

Uma lágrima solitária pingou sobre a capa do livro de Kate. A desolação de Luc mexia profundamente com ela. Oportunidades perdidas, famílias separadas, amores perdidos… era demais para suportar.

- Sinto muito.

- Não precisa sentir pena de mim. O que eu fiz… tudo o que aconteceu… foi graças às minhas próprias ações egoístas – ele sacudiu a cabeça – Não sei por que estou lhe contando tudo isso. Nunca acreditei no ditado que confissão faz bem a alma.

- Algumas vezes, falar ajuda.

- Ajuda? Não tenho certeza. Mas posso ver como seria encantador para um homem se confidenciar com você. Sua voz suave e calma sugere que você é capaz de pacificar uma dor… por algum tempo, pelo menos. Não que eu esteja procurando por isso.

- Acredite em mim… não sou especialista em curar a dor de ninguém e não fingiria ser, nunca.

- Então estamos quites não estamos? Porque não procuro ser curado. Portanto, não cometa o erro de pensar que vim aqui por isso.

Atirando-lhe um olhar de aviso, Luc foi até a porta e puxou a sua jaqueta quase violentamente do gancho.

Ignorando o insulto, Kate se levantou, seu livro caindo no chão

- Talvez… bem, talvez você gostaria de ficar e tomar uma xícara de chá comigo?

- Chá não é o que preciso, Srta. Ford. E algo me diz que você não é o tipo de mulher que estaria disposta a me oferecer o que eu realmente preciso no momento – disse ele com um olhar e um meio sorriso totalmente maliciosos

Luc não precisou explicar. A força do seu desejo estava palpável como uma tempestade pronta para romper.

Ele vestiu sua jaqueta molhada, então abriu a porta com força desnecessária.

- E a propósito, você pode ficar aqui o tempo que quiser. Fique ou vá… Não me importo com o que decidir.

(queen-insanity)



Mas, imediatamente cautelosa, ela parou de acariciar o cão e enfiou as mãos nos bolsos da capa de chuva.

- A que fera você está se referindo? – perguntou ela atrevidamente

Uma sobrancelha escura se ergueu em zombaria.

- Seria necessário mais que uma dose de loucura e uma garota linda de olhos azuis para me dominar Srta. Ford.

- Então você sabe quem eu sou? – disse ignorando o elogio sarcástico.

- Eu deveria ter adivinhado. Você está morando no velho chalé de meu pai.

Se ele pensara que ia chocá-la ela tinha uma vantagem, graças a Sra. Gilbert .

- Ah sim, descobri dias atrás, Sr. O’Connell. E a propósito, desejo que pare de se referir a mim como uma garota. Tenho 26 anos e sou definitivamente uma mulher.

Ela nunca pretendeu que a última parte de sua declaração parecesse petulante, e de algum modo, pareceu. Para seu completo constrangimento, Luc O’Connell atirou a cabeça para trás e gargalhou.

- Aceitarei sua palavra sobre ser mulher e não uma garota, Srta. Ford. Quem sabe o que há por baixo desse traje que você está usando, não?- e acrescentou - E eu bem que gostaria de descobrir.

As faces de Kate coraram de vergonha e resignação.

- Não há necessidade de ser tão rude. É só uma capa de chuva. Não esperaria que eu andasse na praia com algo fino e transparente neste tempo, esperaria ?

Os olhos verdes dele a percorreram. O queixo dele era inegavelmente desafiante.

- Seria mais necessário do que isto que você esta vestindo para domesticar a fera em mim, Srta. Ford.. Mas estou gostando mais da idéia a cada segundo.

- Você é impossível! – Sem poder evitar, Kate bateu um dos pés no chão. E se sentiu imensamente tola em seguida, muito perto das malditas lágrimas para dizer qualquer outra coisa. Na sua frente, Chase inclinou a cabeça, como se entendesse e estivesse empático a ela. Era engraçado como ela estava rapidamente afeiçoada ao cachorro, e não ao homem.

- Você não é a primeira mulher a me fazer essa acusação – murmurou Luc – e certamente não será a ultima. A propósito, nosso encontro hoje foi muito oportuno. Há algo que eu quero lhe dizer.

- Ah é? – As sombrancelhas de Kate se uniram sob a franja loira – e o que seria Sr. O’Connell?

- Você tem duas semanas para desocupar o chalé, o qual, não está mais disponível para aluguel.

Kate encarou o rosto implavável de Luc com incredulidade. Ele queria que ela deixasse o chalé? Em apenas duas semanas? Ela não assinara nenhum contrato, mas contara ficar onde estava por pelo menos mais alguns meses. Partir agora, quando começava a se sentir parte daquele local… Era preocupante e impensável…, e tudo por que o seu “senhorio” aparentemente odiara ela ao primeiro instante!

- Por que?

Luc deu de ombros sob o casaco de couro surrado.

- Pelo que me consta, não sou legalmente obrigado a explicar minhas razões.

- Não, mas é uma cortesia comum, seguramente?

Aqueles olhos misteriosos zombaram abertamente de sua indignação.

- Volte para sua vida segura na Inglaterra, Srta. Ford. Não se deixe enganar pelo panorama ou pela suposta paz deste lugar. Não há nada a ser obtido aqui. Somente sofrimento e tragédia e isso é um fato. Um lugar como esse… uma vida como a minha… não tem tempo para considerações triviais como CORTESIA!

As palavras foram ditas com tal selvageria que por um momento Kate não sabia o que fazer. Uma parte sua queria fugir… Voltar correndo para o chalé e arrumar as malas… Mas, algo a estimulou a ficar e encará-lo, fazê-lo ver que ele não era oúnico que estava feridoNão que ele a ouvira, é claro. Não quando claramente já a dispensara como uma garotinha boba.

- Então eu lamento por você, Sr. O’Connell.

Kate estudou-lhe o rosto. O nariz era aristocrático, a boca, perfeitamente esculpida, e o lábio superior era uma linha de amargura e hostilidade. Notou que, apesar da expressão muito fria, Luc possuía um rosto que podia ser quase irresistível.

- Sinto pena de você… Sim, pena. Parece que você se esqueceu do que é sertotalmente humano. Aposto que está zangado por alguma coisa… Ferido, também. Mas raiva somente cria mais raiva. Isso fere mais do que fere a qualquer outra pessoa. Não sei o que o atormenta, mas gosto do chalé de seu pai… Eu  gostaria de ficar por mais algum tempo. Se quer aumentar o aluguel, então…

- Guarde o seu maldito dinheiro, mulher! Acha que preciso dele?

Ele olhou para o mar, o queixo rijo de raiva, os olhos brilhando… Um prisioneiro no seu próprio mundo melancólico. Um homem que tinha deliberadamente se isolado do resto da humanidade e do conforto que pudesse obter. Kate sentiu um calafrio. Ele era um iceberg… Remoto, glacial e impenetrável. Se ela esperava que ele apela-se a sua melhor natureza, bem… Estava ficando claro que ele não tinha uma.

Com isso estabelecido, Kate virou-se surpresa quando Chase seguiu-a por alguns passos, lamentando-se, como se ele quisesse que ela não fosse embora.

- Você enfeitiçou meu cachorro, sua bruxinha.

As próximas palavras de Luc a fizeram parar. Kate ofegou, atônita.

- Quanto antes você partir, melhor, Srta. Ford. Duas semanas e quero vê-la longe daqui!

Ele se afastou da praia a passos largos. As longas pernas cobertas com jeans preto insinuavam músculos poderosos nas coxas, e Chase, depois de mais um triste olhar para Kate, virou-se e correu atrás do dono…

(queen-insanity)



- E eu levarei um desses deliciosos pães, Sra. Gilbert.

De pé do outro lado do balcão em frente da efervescente Elieen Gilbert, Kate admirava como a velha senhora podia ser tão gordinha e tão graciosa e elegante ao mesmo tempo.

Mexendo numa prateleira e outra, as quais provavelmente estavam ali a séculos, para suprimir a lista de comprar de Kate, ela mantinha uma conversa fluente que era estranhamente reconfortante. O problema era que Kate crescera tão acostumada a fazer tudo sozinha, que não havia muitas pessoas que ela poderia aturar por um longo tempo, mas, a maternal irlandesa era uma exceção.

- Então minha querida, isto é tudo que você vai querer hoje?  - Com os produtos empilhados no balcão e entre elas, ela sorriu calorosamente. Estendendo-lhe o dinheiro para pagar, Kate se sentiu enrubescer por a receptora ser tão generosa, calorosa e tão…  Tão… Maternal.

- Isso é tudo, obrigada. Se eu me esqueci de alguma coisa, posso voltar amanhã certo?

- Claro, embora eu não possa evitar pensar que deve ser muito solitário viver no velho chalé de Paddy O’Connell sozinha. Você está aqui há algum tempo, não está? E sua família? Certamente sua pobre mãe deve estar sentindo muito a sua falta.

Sorrindo desconfortavelmente, Kate não disse nada. Quem era ela para desencantar aquela adorável senhora da idéia de que sua mãe devia estar se sentindo saudade. A verdade era que Elizabeth Martin estava provavelmente alegre que a sua trágica filha se mudara para a Irlanda. Assim ela não teria que lidar com todas as emoções “ inconvenientes”  que detestava e quea presença de Kate inevitavelmente trazia. Com Kate estabelecida na Irlanda por um tempo, Elizabeth podia enganar a si mesma que tudo estava bem no mundo. Um mundo onde ela se tornara mestra em manter as aparências e disfarçar seus sentimentos… no qual podia continuar se socializando e almoçando com as suas amigas, como se a tragédia não houvesse atingido sua única filha como uma onde que praticamente a matara.

Elieen Gilbert era muito esperta e ela descobriu sozinha que a sua referência a mãe de Kate a tinha desconcertado. Não que Kate culpasse a velha senhora por ser curiosa. Ela freqüentemente sentia que os habitantes da pequena mais povoada cidade irlandesa, estavam curiosos sobre a reservada garota inglesa que alugara a “velha casa de Paddy O’Connell”, como era regularmente chamada.

- Agora querida… – Cuidadosamente arranjando os itens da mercearia na grande cesta de Kate, a Sra. Gilbert registrou a quantia na caixa registrador. – Perdoe-me se estou sendo abelhuda, mas acho que você precisa se divertir um pouco… e tenho uma sugestão. Há musica e dança no Malloy’s Bar na rua principal, sábado à noite, e você seria muito bem vinda lá. Por que não se junta a nós? Estarei lá com o meu marido Jack e adoraríamos que você fosse. Certamente um pouco de música e dança não lhe fariam mal algum.

Música… Intimamente, Kate suspirou com anseio. Como sentia falta de música. Mas como poderia voltar a isso depois do que acontecera a Gray? Já fazia 18 meses… Dezoito longos meses que ela encostara em seu violão.

- É gentileza sua me convidar Sra. Gilbert mais eu sou… Eu… Creio que eu não seja boa companhia no momento.

- Eles entenderão que você veio aqui por seus próprios motivos particulares. Minha suposição é que você veio superar algo, alguém talvez? Ninguém espera que você seja a vida e a alma da festa. Vamos lá… Que mal poderia fazer?

- Não posso , apreciei muito o seu convite, mais no momento eu… Simplesmente não posso.

- Sem problemas querida. Você irá quando estiver pronta Jack e eu vamos ao Mallory’s Bar todos os sábados.

- Sra. Gilbert?

- Sim.

- Há um homem na área que tem um cachorro imenso, que mais parece um monstro? Um dinamarquês segundo ele.

- Luc O’Connell – Respondeu Elieen sem hesitação – O pai dele vive no chalé que você está morando.

- Pai? Você quer dizer que o pai dele é Paddy O’Connell?

- Era, sim Paddy. Ele era um bom homem, até que a bebida acabou com ele… Que Deus o tenha – Elieen fez sinal de cruz e continuou – O filho é praticamente dono de tudo que é valioso por aqui… Incluindo o chalé é claro. O que não lhe dá muito prazer, também. É surpreendente que ele não tenha seguido o caminho do pai, com tudo que aconteceu. Mas espero que encontre muito consolo em suas pinturas.

- Ele é artista?

- Sim querida… e muito bom, na verdade. Minha amiga Bridie Harmon trabalha como cozinheira e faxineira na mansão dele. Se não fosse por Bridie, nós não saberíamos nada sobre o homem. Ele vive totalmente isolado. É verdade que dinheiro não compra felicidade. Mais do que verdade no caso de Luc O’Connell eu diria.

- Bem é melhor eu ir Sra. Gilbert, obrigada por tudo – dito isso entrou no carro e dirigindo foi para casa.

Ela não se aventurou a entrar no bosque nos próximos dias , em vez disso caminhava ao longo da praia deserta, vestida apenas com um vestido na altura das coxas e uma capa de chuva. Chovia na maioria das manhãs… uma garoa fina que os locais chamavam de chuva “suave”. Mas Kate não deixava o tempo incomodá-la, pois até combinava com seu estado melancólico.

Coletava conchas espalhadas pela orla da praia. Levando-as para o chalé, arrumava-se nos peitoris das janelas, podendo jurar que o cheiro do mar estava impregnado em cada uma delas. Mas na maioria das vezes apenas caminhava ao longo da areia com nada exceto a musica do oceano e as gaivotas grasnando acima. Andando despreocupadamente Kate descobriu que não estava sozinha. Pegadas de grandes patas nas areias, seu coração disparou. Protegendo os olhos do brilho do sol, olhou a distancia. Lá estavam eles o “lobo mau” e a “fera”. Kate sorriu. Ela não sabia por que mais simplesmente sorriu.

Sorrindo novamente, chutou alguma pedrinha, depois andou para a beira da praia. Enquanto as ondas lambias seus tênis, ela resistiu a vontade de olhar para frente e ver se o “lobo mau” e a sua “fera” tinham ido embora. Em vez disso, fixou seu olhar no horizonte, nos pequenos botes que navegavam sobre as ondas, pescadores provavelmente. Homens que enfrentavam  os caprichos do mar para sobreviver. Havia algo de heróico sobre eles.

Depois de olhá-los por um tempo, Kate silenciosamente desejou-lhes um bom dia e virou-se para ir embora.

Arfou ao ver Chase correndo na sua direção. Atrás dele caminhava seu dono, e mesmo a distancia, Kate podia ver que ele não estava muito satisfeito. Durão pretensioso. Ela se preparou mentalmente para outro encontro tenso mais ficou perplexa quando Chase parou abruptamente a poucos metros dela. Ele se sentou e observou-a com uma expressão tão suplicante que Kate se pegou sorrindo para o animal. Sorrindo para a fera.

- Cachorro tolo – murmurou ela, estendendo a mão para acariciar-lhe a cabeça. Para seu alívio ele não a mordeu, mas produziu um som bem parecido com o ronronar de um gato, que a fez rir.

- Então “Chapeuzinho Vermelho” domesticou a fera – Luc O’Connell parou a poucos metros e olhou para Kate com uma expressão enigmática, mais ao mesmo tempo, como se estivesse faminto. Hmm curioso.

(queen-insanity)



Movida pela raiva que ainda se alojava em seu peito, ela seguiu na direção oposta ao “ lobo mau ” , furiosa consigo mesma por estar chorando de novo. Naquela manhã, prometera a si mesma que hoje era o dia que finalmente fecharia suas lágrimas para sempre. Grande  chance para isso depois daquele encontro desagradável !

A referencia sobre o “ lobo mau ” a atingira em cheio. Teria ele se referido ao seu cachorro ou a si mesmo? Definitivamente a si mesmo, Kate. Tremendo prosseguiu seu caminho.

De volta ao chalé de pedra onde ela se escondera nos últimos três meses, viu com satisfação que a lareira de ferro que acendera estava ainda quente, os gravetos, estalando suavemente. Era incrível a sensação de realização que coisas rotineiras como aquela lhe davam ultimamente. Supunha que era porque tivera que aprender a fazê-las sozinha. O calor do fogo amenizava o ar frio e úmido que tomava conta do velho lugar… Que se infiltrava pelas paredes.

Algumas vezes quando ela vestia suas roupas pela manhã elas ficavam até úmidas, e à noite, era tão frio que Kate tinha de usar uma camisola mais grossa e com cobertores para conseguir dormir. Sua mãe detestaria o lugar… Provavelmente perguntaria o que Kate estava tentando provar vivendo em tão primitivas condições. Ainda bem que ela não estava por perto para comentar.

Tremendo Kate removeu sua jaqueta úmida pela chuva e colocou-a sobre a cadeira mais próxima. Então pôs uma chaleira de água no fogo com uma sensação de algo vitalmente importante sendo realizado… chá. Não podia  pensar direito até que tomasse umas duas ou três xícaras. Naquela manhã, estava ainda mais necessitada do que o usual, devido ao incidente amedrontador com o homem de preto e seu “cachorro”.

Cão dinamarquês? Ele parecia mais uma fera do que um cachorro. E quem era aquele estranho hostil e de onde ele vinha? Kate estava vivendo na área por três meses e nunca ouvira falar dele. A Sra. Gilbert, da loja local, era a fonte de toda sabedoria, e nem mesmo ela mencionara o irlandês e seu imenso cachorro… Pelo menos não para Kate. Suspirando ela ouviu o apito da chaleira e rapidamente preparou seu chá. Seu companheiro de caminhada podia ter sido anti-social e taciturno, mas, recordando sua imagem agora, Kate imaginou se o comportamento dele não era uma espécie de abrigo que escondia alguma profunda infelicidade pessoal. Os olhos verdes pareciam conter dor. Ele estaria se recuperando de algum terrível choque ou algo assim? Kate podia se identificar com isso. Sofrera muito nos últimos 18 meses.

Na verdade, não tinha certeza se já superara sua dor. Havia dias que estava tão deprimida que quase não estancava os seus cortes no pulso, e nem ao mesmo levantava de manhã… Passava o dia todo na cama. Mas aos pouquinhos começava a ver que tinha a possibilidade de curar o seu espírito neste lugar bonito ao oeste da Irlanda era real e não apenas um pensamento desejoso. Com sua montanha selvagem, bosques misteriosos e o imenso Oceano Atlântico à  uma curta distancia da porta de seu chalé, a beleza do local começava a penetrar a depressão e tristeza que a dominara desde a tragédia. Havia uma boa razão pela qual as pessoas se referiam aos poderes de cura da natureza.

Um dia, quando estivesse inteira novamente, talvez encontrasse coragem para retornar ao seu lar… Um dia… Mais não ainda.

Luc O’Connell parecia não conseguir tirar da cabeça a imagem da estranha loira que encontrara no bosque naquela manhã… Garota mal-humorada e incrível. Ele fez uma careta. Com cada passo que dava em direção à sua casa, as lindas feições dela… Especialmente os adoráveis olhos azuis… Tornavam-se mais claras e atraentes. Quem era ela? Alguns britânicos tinham casas de veraneio, mais em meados de outubro os lares usualmente ficavam vazios e abandonados. Então ele se lembrou de algo que o fez parar e menear a cabeça. Devia ter adivinhado quem era a garota, eu devo andar muito distraído nos últimos tempos.

De repente consciente de quem a garota podia ser, imaginou o que a fazia ficar ali, quando, dentro de um mês, o inverno rigoroso chegaria, substituindo o ar gélido outonal e fazendo até mesmo os habitantes locais ansiarem pelo verão novamente. Talvez ela seja uma pessoa solitária que evita as outras pessoas como eu, mas, e se circunstancias pessoais a tivessem levado para aquele refúgio? Luc entendia muito bem a necessidade de solidão e tranqüilidade… Se bem que ele não queria ficar solitário com uma loira dessas habitando sua mente. Não querendo, mais já explorando, acelerou o ritmo da caminhada e foi para casa…

(queen-insanity)



Enquanto ele caminhava, havia uma espécie de raiva nos seus passos, e suas botas trituravam o tapete de galhos e gravetos, despertando um mau agouro em Kate. Ele parou bem atrás do cachorro, estendeu a mão e alisou a cabeça grande do animal.

- Bom menino.  -  Parando de acariciar o cachorro, enfiou a mão no bolso da jaqueta de couro surrado, que podia ter sido um item de alta moda, considerando o efeito que causava naquele corpo alto magro, mais porém musculoso.

Apesar disso, Kate se esforçava para conter a raiva.

- Bom menino?  - Ecoou ela  - Seu cachorro… Se este animal é um cachorro, e tenho minhas dúvidas… Quase me matou de susto! O que você pensa que está fazendo ao deixá-lo correr solto desse jeito?

 - Este é um país livre. Você pode caminhas quilômetros por estes bosques sem encontrar uma alma. Além do mais, Chase não lhe morderia, a menos que eu mandasse.

Um brilho surgiu nos olhos dele, que eram esverdeados. E estranhamente luminosos. Combinando  com aquela voz rica, eram potentes o bastante para causar uma onde de inquietação em qualquer um. Inclusive em mim. Mais o que é isso? Para com isso Kate e concentre-se. Foco. Foco. 

- Chase? Este é o nome dele? Que raça é?

- Dinamarquês.

- Bem, ainda assim. Ele não deveria estar sem coleira.  -  Ignorando o óbvio desdém dele, Kate cruzou os braços, silenciosamente xingando contra a inata habilidade masculina de intimidar e depreciar… e espantada por sua audácia em prorrogar uma conversa com aquele homem. O sotaque dele não era tão cantado quanto  o dos habitantes locais, com o qual ela começara a se acostumar.

À sua frente, Chase respirava ruidosamente, suas orelhas ainda erguidas, como se estivesse esperando pela próxima instrução de seu mestre, Kate manteve um olho no cão,  caso ele pudesse dar um bote, a despeito do que seu dono dissera. Naquele momento, ela não confiava em nenhum deles.

-O problema parece ser estranhos no bosque fazendo uma tempestade em copo d’água por nada. – Uma inata arrogância o fez angular o queixo, evidenciando a feições esculpidas e o talho da boca desdenhosa – Vamos, Chase. Hora de irmos para casa.

O cachorro saltou diante das palavras do dono e Kate soube que fora dispensada… Dispensada e descartada como um aborrecimento insignificante. Ele nem sequer se desculpou por assustá-la. Tudo bem, talvez eu tenha reagido de forma exagerada pelo fato de o cachorro estar sem coleira, quando este bosque era praticamente deserto… Mas mesmo assim…

Já partindo, o estranho se virou para lhe dar um olhar gelado.

- A propósito, se você esta planejando vir neste caminho amanhã, posso assegurar-lhe que nós pegaremos uma rota diferente. Chase e eu valorizamos a nossa privacidade.

- Acha mesmo que eu andaria por aqui novamente depois do medo que eu passei? – Kate ergueu o queixo, seus olhos azuis desafiando a arrogância no olhar hostil do estranho, apesar do desejo de fugir assim que possível.

Ele sorriu. E Kate empalideceu. Que sorriso.

- Nada me surpreende sobre a espécie feminina, garotinha. Agora, corra… E se alguém perguntar porque você esta tão pálida, diga que acabou de encontrar o lobo mau na floresta. Fique agradecida que ele não a devorou como café da manhã… - E acrescentou com um brilho malicioso no olhar - O que seria muito bom.

- Muito engraçado.

(queen-insanity)



Capítulo 1

Para Kate, o barulho ensurdecedor soou como uma manada de antílopes enlouquecidos, e por alguns segundos ela imaginou se entrara em outra dimensão. Deus sabia que aquilo não poderia estar além dos limites destes labirintos de bosques o qual ela estava passeando. Uma imaginação fértil demais poderia enlouquecer uma pessoa. E naquele momento a imaginação deKate a estava enlouquecendo. Ela se arrependeu de ter tomado calmante para dormir na noite anterior… Seu cérebro precisava estar afiado… Não entorpecido por algum tipo de medicação.

Enquanto o barulho alto chegava mais perto, ela olhou através de árvores e folhagens, o medo a preenchendo. Não podia correr. Suas pernas estavam bambas e era impossível pensar direito. Olhou para seus tênis cobertos de lama. Disse a si mesma que poderia correr, se necessário… Mas do quê? Ainda não sabia. Oh, Deus! Não me deixe desmaiar… Qualquer coisa menos isso… Bem, não qualquer coisa. Sua prece silenciosa se transformou num mantra, enquanto ela esperava pela coisa misteriosa que se aproximava.

Segundos depois, um cachorro enorme surgiu por entre as árvores na clareira onde Kate havia se transformado em pedra… Correndo na sua direção. Um ofego estrangulado deixou seus lábios quando ela ficou face a face com o terror que interrompeu o seu terror matinal, sentindo tanto medo que as batidas de seu coração pareciam as de um tambor junto às suas orelhas. Era uma fera e não havia engano!  Que idiota deixaria tal criatura a solta, aterrorizando e possivelmente atacando?  Ao pensamento da ultima possibilidade, ela olhou para a imensa cabeça castanho-amarelada e para a boca grande do cão, viu a longa língua da criatura, indolente e molhada enquanto ele arquejava, e se sentiu fisicamente doente.

Um grito de comando pegou ambos, Kate e a criatura, de surpresa.  A fera ergueu suas orelhas, como se fosse um transmissor recebendo um sinal, e parou abruptamente a poucos passos dela.     

- Oh, Deus!  -  Kate cobriu a boca e xingou contra as lágrimas bobas e mudas que enevoavam seus grandes olhos azuis. Vai ficar tudo bem… Vai ficar tudo bem…  A criatura tinha um dono. Devia ser uma pessoa estúpida e irresponsável, mas não tinha deixado a fera sozinha. Graças a Deus…

Quando ele surgiu por entre as árvores, o homem pareceu chocado ao vê-la… Chocado mais aparentemente, não arrependido… Pausando para avaliar a situação, ele logo deixou claro que desculpas e preocupações por outra pessoa não lhe ocorriam facilmente e com freqüência.

Havia alguma coisa orgulhosa e dominante na postura do homem, o que deixou os sentidos de Kate em alerta.

Alto e inquestionavelmente autoritário, com cabelos negros lisos e marcantes caído na altura dos olhos, ele tinha um rosto duro e implacável, que, mesmo a distância parecia incapaz de qualquer traço de bondade. É, talvez fosse melhor que eu tivesse desmaiado. Ali estava, por volta das 7hrs da manhã, andando sozinha no bosque com um cachorro ameaçador e seu dono igualmente ameaçador, talvez até mais. Se ao menos ela tivesse ouvido os instintos de seu corpo cansado e sucumbido a mais uma hora na cama, mas não… Como sempre, exigia o máximo de si mesma.

Eventos passados podiam ter tido seu preço, mais ninguém a acusaria de ser preguiçosa. Talvez eu precise rever minha opinião mais tarde, droga. Melhor deixar isso para mais tarde. Seu olhar se fixou no individuo dominante que se aproximava..

(queen-insanity)



T H E M E